A memorização é um tema que preocupa, de modo geral, os educadores, pois temem que seus alunos apenas memorizem os dados sem compreendê-los. Esta, sem dúvida, é uma aprendizagem incompleta, que não leva o aluno a desenvolver a capacidade de aplicar o conhecimento adquirido.
Considerando a importância da memória no processo do aprender, verificamos o que se fala na atualidade, visto que o cérebro humano e suas funções são assuntos largamente pesquisados. Entre outros, destacamos o neuroquímico Ivan Izquierdo, um dos cientistas brasileiros mais renomados no exterior, argentino naturalizado no nosso país e trabalhando na UFRGS.
A capacidade de fixar informações vem desde antes do nascimento. Ainda na barriga da mãe, o bebê é capaz de perceber estímulos e reconhecê-los mais tarde. A partir dos três a quatro anos, quando já está falando, o registro de informações se acentua. Aos doze anos a capacidade de memorizar já está igual à de um adulto. Após os 40 anos, há uma tendência a diminuir o registro de informações, o que pode ser desacelerado com atividade física, alimentação saudável e uso continuado da memória em assuntos que lhe sejam prazerosos.
Quanto à função e à educação, a memória é classificada em Memória de Trabalho (MT), Memória de Curta Duração (MCD) e Memória de Longa Duração (MLD).
A MT é acionada tanto na percepção, aquisição e evocação das informações, não deixando traços após a sua utilização. Sua função é manter a informação ‘viva’ enquanto está sendo percebida, processada ou evocada. Desenvolve-se basicamente no córtex pré-frontal, que interage com outras partes do cérebro. É durante esta interação, de maneira inconsciente, que ocorre a decisão se a nova informação deve ser guardada ou deletada. De acordo com o neurologista e professor Del Nero, na Revista Educação, temos em nosso cérebro algo em torno de 200 trilhões de conversas entre neurônios a cada segundo, e uma das características da inteligência humana é selecionar as informações que devem ser registradas e apagar o restante. Segundo Izquierdo, a decisão para arquivar uma informação, ao que parece, baseia-se nos seguintes critérios: interesse individual, a emoção do momento, a necessidade de determinada informação e a quantidade de vezes em que se foi exposto a ela. Desta declaração podemos registrar dados importantes para a nossa prática pedagógica, orientando nosso aluno e redimensionando o desenvolvimento do conteúdo para que ocorra efetivamente a fixação do mesmo.
As memórias que permanecem em nosso cérebro são as MCD e MLD. As informações chegam ao nosso cérebro pelos sentidos, daí a importância de uma correta exploração sensorial no trabalho pedagógico, tanto na sala de aula quanto no estudo individual. Após a interpretação dos estímulos recebidos, nosso cérebro os processa em ambas as memórias, consolidando-os no córtex pré-frontal e no hipocampo.
A memória de curta duração é descrita como “um conjunto de processos que mantém a memória funcionando, durante as horas em que a memória de longa duração não adquiriu sua forma definitiva”. Encontramos muitos alunos com o hábito de estudar apenas na véspera das provas. Desta maneira, grande parte dos conteúdos está apenas em sua MCD , ou seja, o estudo não foi suficiente para transformar a informação em um registro na MLD. Quando dela necessitarem mais tarde, não conseguirão lembrar. Este é um dado de fundamental importância para quem se prepara para um Vestibular ou Concurso.
Já a MLD passa por um processo de consolidação que requer uma sequência de passos moleculares que dura várias horas, estando suscetível a numerosas influências. Segundo Izquierdo, o estado de alerta, o estresse e a ansiedade, estados regulados pelos hormônios corticosteróides e a adrenalina, podem modular positiva ou negativamente a fixação da MLD. O excesso desses hormônios pode desfavorecer tanto a formação como a evocação da mesma. As partes do cérebro vinculados com o afeto, as emoções e o estado de ânimo estimulam ou inibem a cadeia de eventos relacionados a esta memória. Portanto, o processo de formação da MLD é lento, frágil e consiste de muitas etapas. Qualquer uma delas pode falhar e, mesmo que ocorra o registro, devido à interferência emocional, estamos sujeitos aos “brancos” na hora da prova.
Sabendo que a memória e inteligência se influenciam mutuamente e são reguladas e limitadas também pelas emoções, como o medo, a ansiedade em excesso, a alegria, o estresse e a falta de sono, devemos nos preocupar em analisar possibilidades concretas de auxiliar nossos alunos a encontrarem recursos para amenizar a interferência desses fatores na sua produção intelectual.
Nesta busca, recursos como exercícios de respiração e relaxamento e movimentos que diminuem a tensão em certos pontos do corpo, facilitando a integração das atividades dos dois hemisférios cerebrais, podem auxiliar na diminuição destes intervenientes e, consequentemente, facilitar a concentração mental.


Nenhum comentário:
Postar um comentário