MATEUS ABAIXOU A CABEÇA E CHOROU, CHOROU MUITO.
Vamos chamar o protagonista desta história de Mateus. Na época em que seus pais o trouxeram ele estava com 11 anos, na 5ª série do Ensino Fundamental, estudando numa das melhores escolas particulares da cidade onde eles residiam. Uma família de classe média, com um bom poder aquisitivo, mas com baixo nível de escolaridade. Filho único, a preocupação dos pais eram suas notas baixas.
Ele apresentava um estranho cacoete, todas as respostas que
ele dava, respondia de forma afirmativa e negativa ao mesmo tempo. Se
respondesse sim com a voz, com a cabeça ele respondia não. Ele tinha uma
habilidade muito grande para dar estas respostas. Mesmo numa sequência rápida
de perguntas ele respondia sempre desta maneira. Com este comportamento ele
deixava os adultos intrigados.
O desenho que fez de sua família foi igualmente intrigante,
do qual não consegui extrair nenhuma informação significativa. Trabalhamos o
raciocínio linguístico e não apresentou nenhum problema, sua leitura, escrita,
interpretação e produção de texto estavam dentro do normal para sua idade.
Passamos para o raciocínio lógico matemático, neste a sua capacidade foi ainda
maior, tinha uma excelente capacidade para efetuar cálculos mentais.
Sua coordenação motora era muito boa, a psicomotricidade fina, lateralidade, orientação, tudo
indicava uma criança com alto potencial para desenvolver-se plenamente.
Assim chegamos ao nosso 7º encontro e tudo que sabíamos era
que o Mateus era um menino inteligente e ao mesmo tempo intrigante. Em todas as
tentativas ele fugia ou mascarava alguma coisa que o estava incomodando. Neste encontro
propus uma brincadeira de perguntas e respostas, as quais ele respondia sistematicamente
de forma afirmativa e negativa. No meio da brincadeira, que ele estava adorando,
perguntei; você apanha de seus pais? Se eu soubesse com antecedência o que
aconteceria após esta pergunta talvez não a tivesse feito. Mateus abaixou a cabeça
e chorou, chorou muito, eu nunca havia visto uma criança chorar tanto e com
tanto pesar. Os vizinhos, as pessoas que passaram na rua, com certeza ouviram o
seu choro. A camiseta que ele usava acabou ficando toda molhada com suas
lágrimas. Todas minhas tentativas para acalmá-lo foram infrutíferas. Então
sentei ao seu lado, abracei-o e deixei que chorasse. Depois de aproximadamente
30 minutos ele começou a me descrever como o pai batia nele e encerrou dizendo “um
dia meu pai vai me pagar todas as surras que ele me deu”.
No encerramento do trabalho com crianças, sempre converso com
os pais. Nesta conversa descobri que a única preocupação da mãe era sua
aparência física e sua necessidade em ser uma mulher sensual para não perder o
marido. Sobre seu filho ela não tinha uma opinião formada, já o pai que passava
boa parde do dia no trabalho, batia no menino, pois a mãe se queixava de seu
comportamento. Após colocar o que havia acontecido no nosso 7º encontro, sugeri
aos pais que procurassem ajuda de um Psicólogo pois quem precisava de ajuda
eram eles não o menino.