quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A CRIANÇA, AO DESENHAR, NOS MOSTRA SUAS EMOÇOES

          

                  Hoje escrevo sobre uma menina chamada Marta.  Quando sua mãe a trouxe para mim, ela tinha 8 anos, cursava a 2ª série do Ensino Fundamental em uma escola particular e apresentava dificuldades de aprendizagem da leitura.

         Para compreender o processo de relações da criança com o universo escolar, solicitei a ela que desenhasse a escola. No desenho a criança nos mostra todos os seus sentimentos em relação ao que está desenhando.


 

                                       O DESENHO DA ESCOLA

         Quando solicitei a ela que se desenhasse na escola, respondeu que não sabia desenhar pessoas. Mostrei a ela como eu desenhava pessoas, aí ela se animou e começou a desenhar o que lhe havia sido solicitado. 

         Primeiro desenhou o prédio, fez uma chaminé de onde saía fumaça. Isto representa, no desenho infantil, calor ou afeto que existe dentro da escola.  Depois desenhou a porta de entrada, quadriculou os vidros, detalhando e enfeitando sua escola.  Fez a escadaria e no alto desenhou uma pessoa que ela denominou como sendo a Diretora, (reconhecimento da autoridade dentro da escola). Perguntei como era a Diretora e ela prontamente respondeu que “ela não é brava, é bem legal”.

         A seguir dividiu o prédio ao meio formando os dois pisos, fez as janelas do piso superior onde desenhou suas colegas Marta e Lauri. Pedi que também desenhasse a si, desconversou e não se desenhou. Fez as janelas do térreo dizendo ser a sala dos professores e a seguir desenhou pessoas nas janelas. À medida que ia desenhando falava quem era cada pessoa. A primeira era a Professora Mara, a segunda era a Irma, a terceira era a Antonia de Educação Física e voltou a desenhar a Diretora, agora na janela, referindo-se a ela como a “Lu” e por último desenhou a Professora Sonia da 1ª série.  Voltei a solicitar para que ela se desenhasse e ela abanou a cabeça fazendo que não.

         A seguir começou a desenhar o pátio da escola, fez uma bola, pois “os guris gostam de jogar bola e a Jenifer e a Luiza também”.  Desenhou a Luiza dizendo que “ela sempre vai muito bem arrumada para escola” e reclamou da dificuldade em desenhar os cabelos cacheados dela.

         Desenhou a pracinha e a medida que desenhava ia explicando os detalhes e a utilidade de cada peça. Colou 2 pedaços de papel sobre o desenho, dizendo que eram trilhos por onde as crianças passavam.  Considerando o longo tempo de permanência e o carinho com que detalhou a pracinha, este deve ser para ela o melhor lugar da escola. Depois, com gestos bruscos e rápidos, cobriu tudo com preto. Perguntei se não queria usar outra cor, ao que respondeu que gostava de preto.

         Começou a pintar o prédio de vermelho, e cobriu todas as professoras que havia desenhado nas janelas dizendo que não queria mais ninguém nas janelas. Em seguida pintou a parte de cima usando verde e cobriu também o rosto de suas colegas. Desenhou um grande sol ao lado da escola.

Apesar da insistência para que se desenhasse na escola, ela não se colocou dentro da mesma. A Marta nos mostra em seu desenho que ela não faz parte deste universo, os objetivos aos quais a escola se propõem ainda não a atingiram. À medida que desenhava as pessoas referia-se a elas de forma carinhosa e deixou claro que a escola é um ambiente onde existe “calor” e “afeto”, mas ela não se sente integrada ao que ali se faz. A sua dificuldade em ler de forma eficiente, a faz sentir-se excluída do universo escolar.

Quando cobriu as professoras e as colegas com a pintura, dizendo que não queria mais ninguém ali, deixa claro a sua insatisfação e o seu sentimento de inferioridade com relação aos seus resultados escolares.    


 

Lori Sostmeyer Polita - Pedagoga

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